Corpo ou fruto proibido?

Todos detemos mãos, braços, ombros, pernas e tornozelos - e ninguém se choca quando vê um vestígio de pele de uma destas partes do corpo. No entanto, a coisa já muda de figura se introduzirmos zonas íntimas. O constrangimento é tão considerável que até evitamos de designar os órgãos pelos seus respetivos nomes. Falamos dos genitais, as regiões absolutamente proibidas, que só os mais privilegiados têm direito a ver (mas não sem a antecipação de um momento de receio e suspense). Observar, ou mostrar, estas partes do corpo - seja no ecrã ou presencialmente - é analisado pejorativamente como depravação, é um acto de revelação que socialmente deveria ser exclusivo. Mas nem sempre foi assim.


Mesmo após a introdução do vestuário no dia-a-dia de povos pré-históricos, muitas sociedades não abandonaram a nudez enquanto prática regular e perfeitamente normalizada. Tanto que, na Grécia Antiga, o nu era associado à perfeição divina (não é por acaso que muitas das representações de deuses e heróis escusavam o acrescento de roupa). Então, o que mudou? Durante o Império Romano e a consequente ascendência do cristianismo, o vestuário foi sendo adotado como um sinal de status social, daí que a falta dele fosse entendida como sinónimo de vergonha e necessidade - só não se vestia quem não conseguia suportar o gasto. Assim começou um longo período que veio definir a maneira como nos relacionamos com os nossos corpos descobertos.



E como tal, decidimos criar esta edição que celebra o Corpo. Que celebra todos os tipos de corpos. Que celebra as diferenças que nos tornam tão iguais, no que é sermos únicos e incomparáveis. E belos. Se pusermos de lado a lista de imperfeições que recorrentemente fazemos sobre as nossas formas e pararmos com a autossabotagem das comparações. As horas passadas diariamente nas redes sociais fomentam ainda mais um estilo de vida dourado pelos filtros e retoques virtuais que só nos afastam de nós próprios e dos outros. Um estilo de vida narcisista, tão focado na nossa imagem e na imagem que os outros têm de nós, que tende a afastar-nos da realidade. Somos corpo como somos alma. Se somos uma sociedade que se rege (e sofre) pelos cânones de beleza vigentes, é uma pena que não se almeje também uma perfeição nos atos, nos sentimentos, nos valores. Porque, no fim do dia, a nossa imagem é muito mais do que o nosso corpo. E é quando nos encontramos connosco, de corpo e alma, que aprendemos a viver e a amar e a respeitar a pele que habitamos. Porque ela é nossa, no melhor e no pior, na saúde e na doença, como num verdadeiro casamento para a vida.

A única revista em que o corpo tem mais força que o próprio produto. Queremos quebrar barreiras, e conduzir a diferença à normalidade. Adquire a nossa mais recente edição, empodera-te de força e assume o teu corpo, como verdadeiros humans, com sonhos a alcançar.

Publicado originalmente na edição The Body Issue, da Vogue Portugal, de março 2022.

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